Saúde Mental: tomar medicação não é sinal de fraqueza

Por: Carol Ikier

No dia a dia, tornou-se comum ouvirmos que “vencer na vida” depende única e exclusivamente da nossa força de vontade. Cruzamos diariamente com frases motivacionais que prometem o sucesso a um clique de distância, bastando apenas focar nos objetivos. No entanto, quando o assunto é a mente humana, esse discurso ganha uma força perigosa e reducionista: muitos ainda acreditam que a tristeza profunda, a ansiedade paralisante ou o esgotamento extremo são sinais de fraqueza, preguiça ou falta de resiliência.

Vivemos em uma época hiperconectada, que exige alta performance, produtividade implacável e uma positividade constante. Essa engrenagem cultural acaba transformando o cansaço legítimo em culpa e o esgotamento em fracasso pessoal. Mas a verdade clínica e humana é bem diferente: o psiquismo não é uma máquina. Ele tem limites, contornos e tempos próprios que simplesmente não respondem à lógica imediatista da eficiência, seja na no trabalho ou na vida pessoal.

Como psicóloga de orientação psicanalítica, olho para o sofrimento sabendo que a nossa mente tem uma história singular, tecida desde a nossa infância. Nem tudo o que nos machuca, nos angustia ou nos paralisa hoje pode ser resolvido com um esforço consciente ou com receitas prontas. O sofrimento psíquico é real e às vezes, o peso que carregamos silenciosamente se acumula de tal forma que passa a se manifestar no corpo e nas emoções: são insônias persistentes, dores sem explicação médica, palpitações ou um vazio profundo. Quando as palavras faltam, a dor encontra outros meios, muitas vezes sintomáticos e dolorosos.

É nesse cenário de saturação que pode entrar o papel fundamental da medicação.

Ainda existe um enorme tabu em torno do tratamento medicamentoso. Longe de ser uma “muleta”, um anestésico social ou um atestado de incompetência, o medicamento psiquiátrico, quando bem indicado e acompanhado por um profissional de confiança, funciona como um suporte essencial de transição.

O remédio ajuda a regular e estabilizar a química cerebral, acalmando a tempestade biológica e o estado de alerta constante em que o organismo se encontra. Ele devolve ao sujeito a capacidade de recuperar o fôlego.

É preciso destacar, contudo, que o remédio sozinho não faz milagres: ele não apaga os problemas da vida, não reconstrói vínculos e nem substitui o valor da palavra. A medicação pode ajudar a abrir um espaço de alívio indispensável para que a pessoa consiga, de fato, voltar a se escutar. Ao modular o excesso de angústia que paralisa e ensurdece, o medicamento cria as condições biológicas e psíquicas para que o paciente possa dar voz à sua dor no espaço seguro e acolhedor da terapia. É na parceria entre o alívio do sintoma e a investigação das suas causas profundas que a transformação real acontece.

Tratar da saúde mental, portanto, não é um sinal de vulnerabilidade, é um ato de profunda coragem. Significa reconhecer os próprios limites, o que nos humaniza e faz entender que pedir ajuda, seja na terapia, seja na consulta médica, é o primeiro e mais digno passo para retomar as rédeas da própria história.

Não há vergonha alguma em precisar de cuidado, em pausar ou em contar com o suporte da da escuta clínica. O verdadeiro risco social e individual está em deixar de viver melhor, arrastando um sofrimento silencioso por medo de julgamentos.

Se o peso dos dias estiver grande demais e as ferramentas que você usou até aqui parecerem insuficientes, lembre-se: você não precisa, e nem deve carregar tudo sozinha(o). Cuidar de si é o oposto de desistir.

Vanessa Ledier Cabral

Psicóloga Clínica – CRP: 06/159367

Formada em Psicologia, Pós graduada em Avaliação Psicológica e Pós graduanda em Neuropsicologia.Atua há quatro anos na área clínica, realizo atendimentos presenciais e online voltados para crianças, adolescentes e adultos. Além da psicoterapia, também realiza avaliação psicológica e neuropsicológica para todos esses públicos.

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